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terça-feira, 24 de maio de 2016

A esperança equilibrista

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"Caía a tarde feito um viaduto" é um verso absolutamente conhecido e que remete a toda musicalidade e poesia da letra de O bêbado e a equilibrista, escrita pela dupla genial João Bosco e Aldir Blanc, e imortalizada na voz inconfundível de Elis Regina. Mas, desta obra prima da MPB, os versos que visitaram minha mente repetidas vezes nesta semana foram os seguintes: "A esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo desta linha pode se machucar".

Evidentemente a música faz referência a um dos mais escuros momentos da nossa história nacional: a Ditadura Militar (1964-1985) , quando a liberdade era duramente cerceada, quando pessoas de bem eram perseguidas, presas, torturadas, exiladas, mortas... ou, como diziam, desaparecidas. Por sorte, em meio àquele sofrimento todo, velada ou explicitamente, muitos faziam questão de manter a esperança viva, pulsante, movendo-as para adiante, para a vida, na crença de que "apesar de você, amanhã há de ser outro dia".

Se a esperança tivesse falhado, ainda estaríamos vivendo os horrores do passado vendo amigos "desaparecerem" e correndo o risco de nós mesmos desaparecermos, deixarmos de ser. Entretanto, a esperança foi mais forte e superou os tiros, a tortura, os tiranos, os traumas, a tristeza. E a esperança não se move sozinha: ela é colocada em ação. A esperança é um gesto, é uma atitude. Alimentar esperança é fazer vir à vida o desejo que está dentro do peito.

Diante de situações adversas (grandes como a Ditadura ou menores como os conflitos do dia a dia), nossa "esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa vida pode se machucar", caso não seja mantida, caso não seja sustentada, caso não seja alimentada. A voz da esperança é mais alta e mais bela do que o som de tiros e de ossos quebrados. Isso porque "a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar".

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Segurar é segurança?




Ao ver esta notícia hoje, primeiramente fiquei chocado por ter de me lembrar que certas atitudes ainda acontecem em pleno século XXI: crianças amarradas a pedras. Depois um sentimento tentou me acalmar, quando soube que a razão de as crianças serem presas pelas próprias mães era a segurança. Dessa forma as mães indianas acreditavam proteger suas crianças dos perigos das ruas, sobretudo dos riscos de atropelamento. O tema da segurança me levou de volta a uma música antiga e bonita, cantada pelo Rick Astley: Hold me in your arms (https://www.youtube.com/watch?v=MTAUHmphIZM).

Por que me lembrei desta música (especialmente do título - que também é seu refrão)? Talvez porque numa visão romantizada, idealizada pelas relações de confiança e entrega, imaginei que o lugar mais seguro em que as crianças deveriam estar envolvidas e seguras seria entre os braços de suas mães, ou de quem quer que se disponha a cuidar delas, a lhes dar segurança. Mas, trabalhando tanto aquelas mães, como trabalhavam tanto seus respectivos maridos, como dariam melhor condição de segurança para seus filhos? Aquela era a melhor forma para elas, que não podiam pagar escolas, creches ou qualquer outra instituição.

Julgar culturas diferentes é um erro tão primário (etnocentrismo) e tão nocivo, que me policio para não mandar um "Que absurdo!". Julgar atitudes dos outros, centrado no próprio umbigo me parece erro igual. Entre perder as filhas atropeladas, raptadas ou de qualquer forma (porque perder um filho é experiência que nenhum bom pai ousa imaginar) e manter as filhas perto de si, aquelas mães optaram pela vida das crianças, por tê-las sob seu olhar. Talvez estejam ferindo os Direitos Humanos. Talvez estejam tolhendo o direito de ir e vir das crianças. Talvez, talvez, talvez. Quiçás, quiçás, quiçás - como diz o famoso refrão.

Saltei desse emaranhado de pensamentos confusos, conflitantes e angustiantes. Quando pousei meus pés na minha realidade, pus-me a pensar naquilo que ofereço às minhas filhas como segurança. Hoje, moças grandes, passam a maior parte do dia longe dos meus olhos. Nem sempre segurar implica segurança. Estão seguras?  Assim espero. A questão é que não dependem mais tanto de mim nem de uma pedra ou de uma armadilha emocional que as segure. Elas sabem que podem contar sempre com meus braços abertos para segurá-las, isto é, dar-lhes segurança. E é confortante pensar que, praticamente adultas, podem também me receber de braços abertos e me dar a segurança de que preciso. 


quarta-feira, 18 de maio de 2016

O bouquet inteiro e a rosa quebrada




Pensei muito em abrir este texto com uma referência a uma música que as rádios insistem em tocar, porque os ouvintes insistem em ouvir: Aquele 1%. Mas, como minha reflexão parte da imagem de rosas, prefiro iniciar citando Cartola, quando canta: "Queixo-me às rosas. Mas que bobagem! As rosas não falam; simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti." Esta semana, ao entrar em um mercado, apressado como sempre, deparei-me com uma série de rosas sendo vendidas logo à entrada. Dispostos em vasos no chão, os bouquets coloriam a entrada do mercado e, de todos eles, um me chamou a atenção: ele tinha rosas vermelhas lindíssimas, das quais uma tinha o talo quebrado.

Muito me intrigou aquela imagem e, por várias razões, olhei para aquele bouquet a fim de observar o conjunto de rosas. Infelizmente a que mais me despertava a atenção era a de talo quebrado. Sim, "aquele 1%". Perguntei pra mim mesmo: por que no meio de tantas rosas bonitas, de um vermelho vivo, molhadas como se estivessem sob o orvalho, exalando perfume que rescendia no ambiente... por que aquela rosa no talo quebrado  (como canta Caetano Veloso) continuava "arrastando meu olhar como um ímã"? Então, me entreguei a pensamentos e recordações enquanto o mundo continuava acontecendo no mercado.

Foi então que me lembrei de como em muitos momentos na vida muita gente (como eu) direciona sua atenção justamente para o que deveria ter menos atenção. Me veio à mente o verso de Zelia Duncan: "...e você sempre atento ao que menos importa". Lembrei de tantos alunos que já atendi e orientei, os quais insistiam em ressaltar um defeito que tinham, em vez de valorizar o grande número de virtudes que possuíam. Ao agir assim, sempre se diminuíam e minimizavam qualquer elogio que lhes fosse feito. Valorizavam mais uma crítica que os depreciasse do que milhões de motivações que lhes fossem dadas. Claramente uma questão de foco da atenção.

A escola é pródiga em situações como essa. Há salas de aula na qual, por conta de um aluno, professores têm resistência em entrar. Há discurso de palestrante, que por um "seje" se perde inteiro. Há cantina excelente que, por um lanche estragado, vê-se totalmente desqualificada. Há profissional bom em educação que, por um deslize, vê-se desqualificado. Poderia multiplicar os exemplos fora da escola: o arranhado no carro, que desvaloriza o carro todo; a fruta estragada, que inviabiliza o cesto de frutas; a nota desafinada, que estraga a música toda; uma palavra mal colocada, que anula milhares de elogios e incentivos; um sentimento negativo que aplaca um mundo de bons sentimentos. Talvez este seja o "Truque de Mestre": saber direcionar a atenção. Depois desses pensamentos todos, passei a ver o talo quebrado, mas sem perder de vista a beleza do bouquet inteiro - os 100%.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sonhos sem idade



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"Sonho meu, sonho meu. Vai buscar quem mora longe, sonho meu. Vai mostrar esta saudade, sonho meu, com a sua liberdade, sonho meu" (https://www.letras.mus.br/maria-bethania/47244/) é o início de uma música cantada por Maria Bethânia e que envolve minhas lembranças de quando eu era criança e passava a maior parte do meu dia sozinho em casa depois de voltar para a escola. Pensando. Sonhando.

E foi na escola que vivi uma experiência calada que me marcou e vai marcar pelo resto da vida. Vinha eu extremamente concentrado nos tantos afazeres que caracterizam meu dia, colocando pensamentos em ordem, com o olhar fixo e distante. Pensava no que queria pra já e pra sempre. Pensava nas coisas que movimentam a nossa vida: os sonhos. Sonhos meus, novos, fortes, que me enchem de esperança, novos como criança. Até que uma imagem singela cortou como seda aquele mar de pensamentos e me abriu um horizonte do qual ainda não consegui sair.

Uma menininha de seus 7 ou 8 anos vinha na direção contrária à minha, rente à parede, silenciosa, com as mãozinhas juntas e dedos entrelaçados, olhar fixo no chão que passava diante de si sob seus passos regulares e leves como seu pensamento. Parei, como se um farol vermelho imenso acendesse diante de mim e passei a contemplar a pureza daquela cena. E ela passou por mim, como brisa do mar. O turbilhão que estava na minha cabeça silenciou para dar lugar a uma série de perguntas: que sonhos imediatos e distantes ecoavam na mente e no coração daquela criança? O que era pra já? O que era pra sempre?

Como eu, aquela criança também tem pensamentos que deixam o corpo andando automaticamente, que deixam os olhos vidrados e as mãos entrelaçadas. Quereria ela um abraço de uma amiguinha? Estaria preocupada com uma nota de prova? Pensaria ela em um jeito de ser mais vista, mais reconhecida? Imaginaria uma forma de ganhar mais carinho de seus pais? Sonharia ela com ela mesma grande e poderosa? O que falava tão alto na cabecinha dela, a ponto de calar suas palavras? Espero que o sonho dela, com a sua liberdade, vá mostrar a saudade do que ela sentia naquele momento. Os sonhos dela e os meus passaram um do lado do outro, calados, colados.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Defesas abertas

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Entre as notícias que li hoje de manhã, houve uma que me chamou a atenção pelo aspecto inusitado que ela descreve. Ela pode ser lida no link http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/01/reporter-israelense-e-esfaqueado-em-demonstracao-de-colete-antiesfaqueamento.html

A notícia da conta de que um repórter israelense acabou sendo esfaqueado de verdade quando lhe propuseram que usasse um colete à prova de facadas. Ocorre que a pessoa que o esfaqueou acabou atingindo mesmo as costas do repórter, que precisou levar pontos em razão do corte que sofrera. Preocupada, a equipe justificou o erro dizendo que a lâmina penetrou justamente na área do colete em que faltava proteção.

Não por acaso, passei a pensar nas muitas vezes em que nos protegemos com objetos que, ou não nos protegem mesmo, ou que protegem apenas parcialmente, como foi o caso do colete acima referido. Aibags que não disparam na colisão; antivírus que não evitam a ação de invasores; remédios que não agem como deveriam; luvas, joelheiras, caneleiras e outros tantos artefatos que utilizamos para reduzir a possibilidade da dor.

É assim também na vida. Muitas vezes achamos que estamos protegidos contra determinados sentimentos e certas sensações e, por essa razão, consideramo-nos imunes, totalmente protegidos. Esquecemos que nos nossos mecanismos de proteção pode haver partes que ainda oferecem vulnerabilidades apesar de existirem para fornecer resistência a ataques das mais diversas naturezas.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Pelo amor e pela dor


Recebi de um grande amigo um vídeo que mostra a execução da música "Hotel California" (clássico do Eagles) cantada por um grupo bem interessante que não usa instrumentos musicais - o que Bob Mcferrin e o grupo Penthatonics fazem com uma maestria de causar inveja a quem quer que ouça. Para assistir, https://www.facebook.com/LaCasaDelCurioso/videos/946056418782445/?theater. 

Escrevo este texto ouvindo esta versão de "Hotel California" apreciando a beleza da música e, às vezes, até me esqueço de que se trata de uma versão diferentes, de que não há instrumentos musicais. Ao ouvir já tantas vezes, uma ideia muito antiga me ocorreu: é possível chegar a bons resultados por meios diferentes, mas é preciso saber fazer direito. É preciso aprender a fazer de formas diferentes, com o afinco e a dedicação de quem quer chegar a bom termo.

É assim nesta e em tantas outras músicas; é assim na vida. Quantas e quantas vezes pretendemos chegar ou manter os mesmos resultados, agindo de uma forma diferente e sem a mesma competência e esforço necessários? Muito difícil: a não ser por intervenção sobrenatural ou por uma conjunção muito especial de fatores, não é possível atingir bons resultados sem o empenho necessário. É preciso aprender a fazer e aprender a ser.

Muitas vezes se aprende pelo amor; outras, pela dor - como diziam os antigos (eu, inclusive). Experiências da vida cotidiana revelam que o melhor do existir é justamente aprender. E, com o aprendizado, ir lapidando posturas, ideias, palavras, comportamentos, sentimentos e tudo o que for necessário para se atingir sempre o melhor resultado possível. E todos temos muito o que lapidar em nós. "Viver é afinar um instrumento; de dentro pra fora, de fora pra dentro".

sexta-feira, 20 de março de 2015

Perto, mas nem tanto

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Li, com uma perplexidade imensa, a notícia segundo a qual um rapaz, considerado como sem-teto, começou a viver suas noites em um barco-casa, na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. Sua decisão se deveu ao fato de ele temer ser agredido durante a noite, quando dorme em calçadas, sem a menor proteção. Tem 30 anos o rapaz (não vou citar o nome dele aqui) e construiu sua própria embarcação. Ele foi citado até na imprensa francesa, e aqui a reportagem está no seguinte endereço: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/03/1605840-sem-teto-constroi-barco-casa-na-baia-de-guanabara.shtml.

Três coisas me vieram à mente. Bem daquelas que vêm e ficam como se estivessem sendo ruminadas para ganharem um destinho nessa minha cabeça que pensa 200 coisas ao mesmo tempo. A primeira delas foi que a história desse rapaz me lembrou a narrativa de Guimarães Rosa: "A terceira margem do rio", em que, por outras razões, o protagonista toma decisão semelhante: decide ir morar naquela que chama de terceira margem do rio. Me dá uma sensação incômoda de estar longe, mas nem tanto; perto, mas nem tanto. Enfim, uma posição que não é nem deixa de ser.

Tomar conhecimento dessa opção do sem-teto no Rio de Janeiro também me fez pensar sobre as formas de violência de que ele é vítima todos os dias. E noites, como se pode ver. Parece-me que ele opta por aquela que o fere menos. Entre correr o risco de ser fisicamente agredido por outra pessoas na calada na noite e escolher ser agredido pelas águas extremamente poluídas da Baía da Guanabara e pelo cheiro horroroso que dela emana, ele optou por esta última - que também não deixar de ser uma violência de pessoas na calada da noite e do dia. Ainda que indiretamente. Assim, ele está longe, mas nem tanto da violência. Perto mas nem tanto.

Talvez devesse existir o não-lugar, um espaço em que se vivesse em suspensão temporária, apenas para se poder tomar o fôlego necessário pra poder dar continuidade à lida, à vida, ao rumo da saída. Não penso em um não-lugar como um Triângulo das Bermudas e tampouco como o Buraco Negro, mas um lugar em que pudéssemos estar para não estar aqui quando fosse necessário (não por irresponsabilidade, mas por necessidade). Um lugar, assim, perto, mas nem tanto. Longe, mas nem tanto.